Quando Rafaela Santos da Silva, a conhecida Rafão, entrou para a canoagem aos 15 anos, dificilmente imaginava que o esporte mudaria completamente o rumo de sua vida. Hoje, aos 37 anos, morando na capital paulista e completando uma década de atuação na Polícia Militar, ela olha para trás e reconhece que grande parte dessa transformação começou graças à confiança depositada nela por um homem: Jefferson Lacerda.
Ex-atleta da canoagem de Ubaitaba, Rafão construiu uma trajetória marcada por conquistas nacionais e internacionais e afirma que o treinador foi fundamental para sua formação dentro e fora do esporte.
"Papito, como Lacerda também é chamado carinhosamente pelas atletas, foi um divisor de águas na minha vida", resume a ex-canoísta ao falar de Jefferson Lacerda, figura central na construção da canoagem baiana e brasileira.
Filha de uma família simples e estruturada, Rafaela admite que, durante a adolescência, vivia mais voltada para festas e distrações da juventude do que para o esporte. Tudo começou a mudar quando conheceu a canoagem e passou a conviver com Jefferson.
"Eu estava indo no embalo de muita festa e muita balada. Foi ele quem me apresentou a canoagem, o amor da minha vida", recorda.
A relação entre treinador e atleta foi construída sobre cobranças, disciplina e incentivo constante. Rafão lembra que Jefferson não aceitava que seus atletas se acomodassem e insistia para que acreditassem no próprio potencial.
"Quando ninguém acreditava em mim, ele acreditou. Ele me chamava para conversar, mostrava meu potencial e não me deixava desistir."
Os resultados vieram dentro d'água. Formando dupla com Carol Longo na categoria C2, Rafaela conquistou importantes resultados para a canoagem brasileira.
"A gente ganhou o Campeonato Brasileiro em 2011. Também em 2011 fomos vice-campeãs sul-americanas na Argentina e, em 2012, disputamos o Pan-Americano no Rio de Janeiro. Tudo no C2, eu e Carol Longo sempre ganhando", relembra.
O título pan-americano foi um dos momentos mais marcantes de sua carreira. Rafão conta que Jefferson comemorou a conquista com uma emoção ainda maior do que a dela própria.
"Ele acreditou quando ninguém acreditava. Quando ganhamos, lembro dele dizendo: 'Eu te falei'. Ele comemorou mais do que eu."
Segundo a ex-atleta, Jefferson não apenas treinava. Muitas vezes financiava viagens, ajudava atletas com recursos próprios e investia no desenvolvimento de jovens talentos em uma época em que os incentivos ao esporte eram escassos.
"Antes de existir Bolsa Atleta, ele tirava dinheiro do próprio bolso para ajudar os atletas. Pagava viagens e acreditava nos meninos e meninas da canoagem."
Ao longo dos anos, porém, as constantes mudanças nos critérios de convocação para a Seleção Brasileira e a necessidade de buscar estabilidade profissional fizeram com que Rafão decidisse encerrar a carreira esportiva.
"A idade foi chegando e a vaga da seleção todo ano mudava o requisito. Resolvi parar e seguir outro caminho". Inicialmente, ela tentou ingressar na Polícia Militar da Bahia. Foi aprovada, mas ficou fora do número de vagas. A decisão seguinte mudaria novamente sua vida. "Resolvi vir para São Paulo, onde minha mãe já estava morando. Graças a Deus deu certo. Este ano completei dez anos como policial militar no Estado de São Paulo."
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Sua trajetória dentro da segurança pública passou pelo Corpo de Bombeiros, pelo policiamento ostensivo de área e, atualmente, ela integra o Batalhão de Choque da Polícia Militar paulista.
Apesar de estar há cerca de 12 anos sem competir, a ligação com a canoagem permanece viva. Recentemente, durante uma visita à Bahia, reencontrou antigas companheiras de equipe e voltou a sentir a emoção dos tempos de atleta.
“Outro dia sonhei competindo em um campeonato”, conta aos risos.
Hoje, sua parceira de barco e amiga de longa data, Carol Longo, segue ligada ao esporte, trabalhando em Minas Gerais como instrutora de canoagem. Para Rafão, entretanto, o maior legado da canoagem não está apenas nas medalhas conquistadas. Está nos ensinamentos recebidos de Jefferson Lacerda.
"O que ele ensinou foi muito além da canoagem. Ele ensinou disciplina, responsabilidade e mostrou para muita gente que era possível sonhar mais alto."
Ao lembrar da própria história, Rafaela não tem dúvidas de que a jovem de 15 anos que entrou na canoagem encontrou em Jefferson Lacerda muito mais do que um treinador. Encontrou alguém que acreditou nela antes mesmo que ela acreditasse em si própria. E foi justamente essa confiança que ajudou a formar não apenas uma campeã, mas também a profissional e a mulher que ela se tornou.
Por Wesley Faustino; pesquisador, historiador, escritor, especialista em Gestão Pública e Gestão Ambiental e ex-vice-prefeito de Ubatã.