Funil coloca 413 pessoas em área de autossalvamento e revela concentração em Ubaitaba

Piraúna concentra 382 das pessoas; análise do Interiorano também encontrou divergência no documento sobre qual cenário de ruptura é considerado o mais crítico.

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Foto: Garcia Jr/Interiorano
Foto: Garcia Jr/Interiorano

Quatrocentas e treze pessoas vivem na área considerada mais sensível do planejamento de emergência da Usina de Funil e 382 delas estão em Ubaitaba. Os números aparecem na nova versão do Plano de Ação de Emergência (PAE) da usina, localizada no Rio de Contas.

O documento, emitido pela AXIA Energia Nordeste em outubro de 2026, atualiza informações sobre as localidades e a população potencialmente envolvidas em uma situação hipotética de emergência ou ruptura da barragem. Os dados não significam que exista rompimento, risco iminente ou situação de emergência em andamento. O PAE é justamente um instrumento preventivo, estabelece cenários hipotéticos, áreas potencialmente atingidas, sistemas de comunicação e procedimentos que devem ser adotados caso uma emergência ocorra.

A AXIA informa manter monitoramento, inspeções, manutenção e planos de emergência como parte da gestão de segurança de suas barragens. O ponto que mais chama atenção está em Piraúna, distrito de Ubaitaba. Segundo o plano, a localidade está totalmente inserida na Zona de Autossalvamento (ZAS). O próprio documento trata Piraúna como a situação de maior atenção entre as localidades desse trecho. Em versão pública do PAE, a empresa já registrava expressamente que o distrito estava totalmente inserido na ZAS.

A Zona de Autossalvamento é a área mais próxima da barragem, onde o planejamento considera que o tempo disponível em uma emergência pode não ser suficiente para que órgãos públicos realizem toda a retirada da população. Por isso, sistemas de alerta, rotas de fuga, pontos de encontro, treinamentos e conhecimento prévio dos moradores ganham importância especial.

Dos 413 moradores estimados na nova atualização, a distribuição apresentada tem em Ubaitaba 382 pessoas, Ibirapitanga, 25, Gongogi, 4, Aurelino Leal, 1 e Maraú, 1. Ubaitaba, portanto, concentra aproximadamente 92,5% de toda a população estimada dentro da ZAS. O novo cálculo utiliza os setores censitários do Censo Demográfico de 2022, substituindo bases populacionais anteriores e buscando aproximar o planejamento da realidade atual das comunidades.

A concentração populacional não é o único dado que coloca Ubaitaba no centro da discussão. No Cenário 3 apresentado no estudo, aproximadamente 27,5 km² do território municipal aparecem dentro da área calculada para a Zona de Segurança Secundária. Isso corresponde a cerca de 15,19% da área de Ubaitaba.

Em Itacaré, são aproximadamente 77,97 km², equivalentes a 10,74% do território municipal. O levantamento também considera áreas de Aurelino Leal, Maraú, Gongogi e Ibirapitanga. Os mapas seguem o curso do Rio de Contas em direção ao litoral e alcançam áreas próximas a Ubaitaba, Aurelino Leal, Taboquinhas e Itacaré.

É importante fazer uma distinção: estar dentro de uma mancha simulada não significa previsão de rompimento. Os mapas representam o comportamento calculado da água em cenários hipotéticos utilizados para planejamento de emergência.

Foi durante a leitura dessas tabelas que o Interiorano encontrou um ponto que merece esclarecimento técnico. Em um trecho, o documento afirma que, entre quatro simulações analisadas, o Cenário 3 mostrou-se o mais crítico. A própria delimitação da ZAS em versão pública anterior do plano também foi feita com base no Cenário 3. As tabelas referentes às áreas potencialmente atingidas igualmente apresentam o Cenário 3 como referência crítica.

Mas, na sequência, a tabela que traz a nova estimativa de 413 pessoas na Zona de Autossalvamento aparece identificada como Cenário 2, acompanhada também da indicação de “cenário mais crítico”. Na prática, o documento passa a apresentar duas referências diferentes para uma informação central: afinal, o cenário considerado mais crítico é o 2 ou o 3?

A divergência não permite concluir que os 413 moradores estejam calculados incorretamente. Mas levanta uma questão objetiva. A identificação da tabela está errada ou a estimativa populacional foi calculada a partir de um cenário diferente daquele usado para delimitar a ZAS?

O Interiorano pretende encaminhar essa pergunta à AXIA Energia. Pode parecer apenas um número de tabela. Não é. Em um Plano de Ação de Emergência, o cenário utilizado como referência interfere na compreensão da mancha de inundação, das áreas potencialmente afetadas e do planejamento destinado à população.

Se o Cenário 3 é efetivamente o mais crítico, é importante que as tabelas relacionadas a ele sejam identificadas de forma consistente. Se a população de 413 moradores foi calculada com base no Cenário 2, a empresa precisa esclarecer por que esse cenário aparece naquela tabela como o mais crítico.

Transparência nesse tipo de documento é fundamental justamente porque ele serve de referência para moradores, Defesas Civis, prefeituras e demais órgãos envolvidos na preparação para emergências. A Usina de Funil está localizada em Ubaitaba, no Rio de Contas, possui barragem de concreto com cerca de 60 metros de altura e capacidade instalada de 30 MW.

Ubatã está perto do reservatório de Funil e mantém relação direta com o Rio de Contas e com a dinâmica regional. Porém não aparece entre os municípios com moradores contabilizados dentro da Zona de Autossalvamento na atualização analisada. Nesse levantamento aparecem: Ubaitaba, Ibirapitanga, Gongogi, Aurelino Leal e Maraú. Isso não torna o assunto distante de Ubatã.

Uma emergência de grande proporção no Rio de Contas envolveria uma estrutura regional de resposta e poderia repercutir sobre deslocamentos, rodovias, serviços públicos e municípios vizinhos. Por isso, compreender o plano é também uma questão de informação pública regional.

O dado mais importante do documento talvez não seja apenas que 413 pessoas aparecem dentro da ZAS. É saber se essas 413 pessoas conhecem: o sinal de alerta, a rota de fuga, o ponto de encontro e aquilo que precisam fazer nos primeiros minutos de uma emergência.

É essa etapa que transforma um plano técnico em proteção real. A AXIA informa que seus Planos de Ação de Emergência contemplam procedimentos de comunicação, treinamento e resposta, e que a companhia realiza ações de monitoramento e preparação relacionadas à segurança das barragens.

Agora, o Interiorano pretende avançar sobre três perguntas: Quando foi realizado o último simulado com os moradores da ZAS da UHE Funil? Todos os sistemas de alerta instalados nessa área estão operacionais? E qual é, afinal, o cenário mais crítico: 2 ou 3? São respostas que interessam principalmente às 413 pessoas que o próprio plano coloca dentro da Zona de Autossalvamento. (Interiorano)


FONTE: interiorano.com.br
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