Após sequência de derrotas, força política de Siméia entra em xeque em Ubatã

Ex-prefeita viu suas principais apostas serem derrotadas e chega ao ciclo de 2028 diante do desafio de reconstruir protagonismo eleitoral em Ubatã.

Por
Foto: repdoução instagram / com modificações via IA
Foto: repdoução instagram / com modificações via IA

Quando Siméia Queiroz (Avante) rompeu politicamente com Tinho do Vale (PT), os dois passaram a ocupar campos distintos nas principais disputas eleitorais. Desde então, as urnas começaram a medir não apenas os candidatos escolhidos por cada lado, mas também a capacidade dessas duas forças de interpretar e mobilizar o eleitorado de Ubatã.

O primeiro grande teste veio em 2022. Siméia apostou em ACM Neto para governador. Tinho ficou com Jerônimo Rodrigues. Durante boa parte da campanha, a escolha de Siméia parecia confortável. ACM Neto liderava pesquisas e entrou na disputa como favorito. As urnas mudaram o roteiro. Jerônimo cresceu, avançou ao segundo turno e derrotou Neto na Bahia.

Em Ubatã, aconteceu o mesmo. Jerônimo recebeu 4.808 votos, ou 54,79%, contra 3.967, ou 45,21%, de ACM Neto. Foi a primeira grande derrota eleitoral do campo escolhido por Siméia depois do rompimento com Tinho. Dois anos depois, a comparação deixou de depender de candidatos estaduais. Siméia e Tinho estavam diretamente na urna. Tinho conquistou a reeleição com 5.454 votos, equivalentes a 57,65% dos válidos. Siméia terminou com 3.798 votos, ou 40,14%. A diferença foi de 1.656 votos.

Se 2022 ainda permitia discutir influência de governador, conjuntura estadual e transferência de apoio, 2024 apresentou uma fotografia muito mais direta. Era Tinho contra Siméia. Tinho venceu. E aquele resultado passou a ser a principal referência para qualquer discussão sobre o tamanho atual das duas lideranças no município.

Em 2026, os dois voltaram a ocupar lados opostos na eleição estadual. Siméia retomou o apoio a ACM Neto. Tinho permaneceu com Jerônimo Rodrigues. Desta vez, Siméia conseguiu uma vitória apertada dentro de Ubatã. Neto recebeu 4.361 votos, contra 4.148 de Jerônimo. A diferença foi de apenas: 213 votos. Mas terminou na divisa de Ubatã.

No conjunto da Bahia, Jerônimo voltou a derrotar ACM Neto e garantiu a reeleição. Em quatro anos, portanto, Siméia apostou duas vezes no mesmo projeto estadual. Nas duas, ACM Neto terminou derrotado na disputa pelo Governo da Bahia.

Então veio o segundo turno presidencial

A eleição presidencial de 2026 abriu outro teste. No primeiro turno, o grupo de Siméia não colocou a disputa presidencial no centro de sua estratégia local. No segundo, isso mudou. Siméia, seu pai e principal liderança política, Expedito Rigaud, e integrantes de seu grupo passaram a apoiar Flávio Bolsonaro contra Lula. E é aqui que uma comparação com 2022 oferece uma leitura interessante.

Em 2022, quando Siméia ainda não fazia parte do campo presidencial bolsonarista, Jair Bolsonaro recebeu 2.674 votos no primeiro turno em Ubatã. No segundo, chegou a 2.975. Um crescimento de 301 votos, ou 11,26%. Quatro anos depois, Flávio Bolsonaro começou o segundo turno com uma base maior. Recebeu 3.051 votos no primeiro turno de 2026. Depois, ganhou também o apoio de Siméia e de seu grupo. Terminou com 3.264. O acréscimo foi de: 213 votos. Politicamente, porém, a comparação entre os dois ciclos merece atenção.

Em 2022, o campo bolsonarista acrescentou 301 votos e cresceu 11,26% entre os turnos. Em 2026, já com a adesão de Siméia, Flávio acrescentou 213 votos e cresceu 6,98%. Foram 88 votos adicionais a menos entre turnos. Proporcionalmente, a expansão registrada em 2022 foi cerca de 61% maior.

A conclusão possível é simples: o campo ganhou novas alianças políticas, mas sua expansão entre os dois turnos foi menor. Isso permite questionar quanto essas novas alianças efetivamente acrescentaram à candidatura dentro do município.

Enquanto Flávio crescia 213 votos, Lula teve outro desempenho. Apoiado por Tinho do Vale e seu grupo, o presidente passou de 5.152 votos no primeiro turno para 5.929 no segundo. Foram: 777 votos a mais. Crescimento de 15,08%. Flávio avançou 6,98%. Lula cresceu proporcionalmente mais que o dobro. No resultado final, terminou com 5.929 votos, ou 64,49%, contra 3.264, ou 35,51%, de Flávio. A diferença chegou a 2.665 votos.

Outra vez, Tinho e Siméia não estavam pessoalmente na urna. Mas estavam em campos opostos. E outra vez o lado apoiado pelo prefeito terminou vencedor — em Ubatã e, neste caso, também nacionalmente. É aqui que a sequência das urnas ganha peso político. Em 2022, a principal aposta estadual de Siméia perdeu. Em 2024, ela própria enfrentou Tinho e perdeu por 1.656 votos. Em 2026, conseguiu colocar ACM Neto à frente de Jerônimo em Ubatã por 213 votos, mas viu o aliado perder novamente a eleição estadual.

Depois, no segundo turno presidencial, aderiu ao campo de Flávio Bolsonaro, que terminou derrotado nacionalmente e cuja expansão em Ubatã foi inferior à registrada pela direita quatro anos antes.

Nenhum desses resultados isoladamente encerra o futuro político de uma liderança. Mas, juntos, eles formam uma sequência. E política também é construída por sequência. Qual é o tamanho eleitoral de Siméia hoje? Essa talvez seja a pergunta que 2028 começará a responder. 

A trajetória recente de Siméia mostra uma liderança que transitou por diferentes campos da política baiana. Já esteve próxima de lideranças petistas. Nos últimos ciclos, aproximou-se de ACM Neto. Em 2026, no segundo turno presidencial, aderiu também ao campo de Flávio Bolsonaro. Mudar de posição política é legítimo. A democracia permite — e muitas vezes exige — reposicionamentos. Mas existe uma pergunta que nenhuma articulação consegue evitar: essas escolhas estão interpretando corretamente o eleitorado que Siméia pretende representar?

Uma liderança que deseja voltar à Prefeitura precisa compreender mais do que nomes e partidos. Precisa ler o sentimento da cidade. Precisa entender onde está a maioria. Precisa saber quais alianças acrescentam votos e quais acrescentam apenas fotografias. Precisa ler Ubatã.

Ainda faltam dois anos. Tinho não estará necessariamente na mesma posição eleitoral. Novos nomes podem surgir. A Câmara pode produzir candidatos. O G6 pode interferir no tabuleiro. Alianças atuais podem desaparecer. E Siméia pode reconstruir sua estratégia.

Em entrevista recente ao jornalista Garcia Jr., Expedito Rigaud afirmou que o resultado das urnas de 2026 daria o recado: mostraria se o povo chamaria novamente seu grupo político — e sua filha — para a disputa de 2028. As urnas deixaram uma sequência.

E essa sequência colocou Siméia diante de uma necessidade política clara: reconstruir sua narrativa, demonstrar capacidade própria de mobilização e voltar a convencer uma maioria dentro de Ubatã. Depois de três ciclos eleitorais, talvez a pergunta mais importante já não seja: quem Siméia apoiará em 2028?

A pergunta que começa a circular nos bastidores é outra: qual é hoje o tamanho eleitoral de Siméia Queiroz — e quanto desse capital político chegará vivo a 2028? (Interiorano)


FONTE: interiorano.com.br
Tags »