Muito antes de se tornarem marido e mulher, Djalma Sanches Medina, o Dinho Moleza, e Maria Aparecida Carvalho Longo, conhecida como Cida, construíram uma amizade que atravessou anos e teve a canoagem como pano de fundo. A história, contada pelo próprio Dinho, revela como um gesto simples — o presente de uma camisa de um tradicional evento da modalidade — acabou marcando o início de uma trajetória que culminaria no casamento do casal.
Segundo Dinho, os dois se conheceram em 1984. Cida morava em Salvador, mas costumava passar os festejos juninos em Ubaitaba, onde tinha familiares. Foi durante as comemorações de São João que nasceu uma amizade que se fortaleceria ao longo dos anos. "Primeiro veio a amizade. Durante muitos anos fomos apenas amigos", recorda.
Sempre que Cida visitava Ubaitaba, o grupo de amigos se reunia para aproveitar os festejos juninos e visitar fazendas da região, entre elas a Fazenda Aurora. Esses encontros anuais consolidaram um vínculo de amizade que atravessou toda a década de 1980.
Em 1989, Dinho iniciou sua trajetória na canoagem. Naquele mesmo ano, durante um evento esportivo realizado em Ubaitaba, Cida estava na cidade. Como lembrança da competição, ele decidiu presenteá-la com uma das camisas oficiais do evento, sem imaginar que aquele gesto ganharia um significado especial anos depois.
Tratava-se da camisa oficial do VI Circuito de Canoagem Desbravadores – Ano I, criada pelo artista plástico Zé Cosme para o evento realizado em 30 de julho de 1989. A peça, que inicialmente representava apenas uma recordação esportiva, acabaria se transformando em um dos maiores símbolos da história de amor do casal.
Também em 1989, a canoagem de Ubaitaba começava a conquistar projeção além das margens do Rio de Contas. Uma das primeiras reportagens sobre a modalidade foi publicada pelo Jornal A Tarde, fato comemorado pelos atletas que buscavam divulgar o esporte e fortalecer sua presença no cenário baiano. Ao ler a reportagem, Cida telefonou para parabenizar Dinho pelo reconhecimento que a canoagem começava a alcançar.
Dinho conta que ainda preserva esse importante registro histórico. O recorte do jornal, guardado ao longo de mais de três décadas, encontra-se atualmente sob os cuidados de José Carlos Lona, outro personagem importante da história da canoagem baiana.
Apesar da forte amizade, cada um seguiu seu caminho por algum tempo. Somente anos depois, durante os festejos juninos realizados entre 1997 e 1998, a relação começou a mudar. As conversas ficaram mais frequentes, a amizade deu lugar ao romance e, em 1998, os dois iniciaram o namoro.
Na época, Cida trabalhava em Salvador como professora alfabetizadora. Ao longo da carreira, ensinou diversas crianças a ler e escrever, entre elas ACM Neto, que anos depois se tornaria deputado federal, prefeito de Salvador e atualmente é candidato ao Governo da Bahia. Anos mais tarde, durante um evento político, ela foi reconhecida pelo ex-aluno, que interrompeu a caminhada para cumprimentá-la, em um reencontro marcado pelo carinho e pela gratidão.
O namoro evoluiu rapidamente e Dinho e Cida oficializaram o casamento há 27 anos, precisamente em 30 de julho de 1999. Ao recordar essa trajetória, Dinho destaca uma coincidência que nunca esqueceu. Exatamente dez anos antes do casamento, havia presenteado a então amiga com a camisa do evento de canoagem realizado em Ubaitaba.
Guardada por décadas, a camisa deixou de representar apenas um evento esportivo para simbolizar o início de uma história construída sobre amizade, respeito e companheirismo. Mais do que uma lembrança da canoagem, ela se transformou em um marco da vida do casal, demonstrando que, às vezes, os grandes capítulos da vida começam com um gesto simples, às margens do rio que ajudou a formar gerações de canoístas baianos.
Wesley Faustino é escritor, historiador e pesquisador. Ex-vice-prefeito de Ubatã, é especialista em Gestão Pública Municipal e Gestão Ambiental e já exerceu funções de diretor-geral, chefe de gabinete e secretário em órgãos das administrações municipal, estadual e federal. Dedica-se à preservação da memória e à análise da política, da cultura, do esporte e das instituições de Ubatã e do sul da Bahia.