A história da canoagem na Bahia não se explica apenas por medalhas. Ela passa, inevitavelmente, por mãos que abriram caminhos quando quase não havia estrada. Entre essas mãos, está a de Jefferson Lacerda, citado por dez entre dez atletas ouvidos e quem viveu o início de tudo como um dos responsáveis por transformar um sonho isolado em movimento coletivo.
É nesse ponto que a trajetória de Alex de Jesus Silva, 41 anos, se cruza com a dele. Campeão brasileiro em 2001 e 2006, Alex é daqueles talentos que surgem cedo, quase prontos. Mas, como tantas histórias do esporte no interior, a dele também carrega interrupções.
“Eu tive que trabalhar. Não dava para conciliar”, resume, sem rodeios. Em entrevista ao Podcast do Chefe, o próprio Lacerda chegou a dizer que, "em outras condições, Alex poderia ter alcançado o nível que chegou hoje Isaquias Queiroz". A frase não é exagero é contexto.
Alex deixou o esporte em 2006. Não por falta de talento. Antes disso, porém, houve um início que ainda hoje impressiona. Ele chegou à canoagem em 2001, em Ubatã, levado por um amigo. Menos de 40 dias depois, já estava em um Campeonato Baiano. Era sua estreia e terminou em quarto lugar. Não era um quarto lugar qualquer.
“Ali estavam os melhores canoístas do Brasil. E mesmo assim eu cheguei entre eles”, lembra.
Foi nesse mesmo cenário que ele conheceu Jefferson Lacerda, então técnico da seleção brasileira e figura central na organização da canoagem na região. A partir dali a trajetória ganhou velocidade: classificação para o Brasileiro, primeiras viagens, competições maiores, convocações. Mas, ao contar sua história, Alex não fala primeiro das vitórias. Ele fala de quem acreditou.
“Se não fosse o empenho de Lacerda de trazer a canoagem para a Bahia, eu nem tinha conhecido esse esporte.” Há um momento específico que ele guarda como síntese dessa relação. Em 2002, durante o Campeonato Brasileiro, Alex fez a prova perfeita nos 1000 metros. Venceu com ampla vantagem. Dominou a disputa. Mas, ao final, veio a notícia: desclassificado. Havia competido sem o uniforme completo, num descuido comum a quem ainda aprende sob pressão.
“Eu estava no calor da prova. Baixei o macacão e esqueci de subir na largada”, conta. A vitória virou frustração. E poderia ter virado abandono. Não fosse Lacerda. “Ele olhou para mim e disse: ‘você vai. Ou você vai, ou ninguém vai’.” A vitória valia vaga para o Pan-Americano.
A frase, simples, teve efeito imediato. Mais do que consolo, foi direção. Lacerda interveio, insistiu, sustentou a permanência do atleta na disputa. Alex seguiu. E respondeu dentro d’água. Na sequência, conquistou o segundo lugar no Pan-Americano e garantiu vaga no Mundial. Histórias assim não se constroem só em competições. Também se constroem nos bastidores e Alex faz questão de lembrar disso.
“Meu remo quebrava, eu ia na casa dele, em Ubaitaba. Sempre tinha um para me emprestar. Ele nunca me disse não.”
Esse detalhe, pequeno à primeira vista, ajuda a entender o tamanho da influência. Porque, em lugares onde falta estrutura, o incentivo pessoal muitas vezes é o que mantém um atleta de pé. Marcos Costa Lima, o Marcão da Canoagem, presidente e fundador da Associação Ubatense de Canoagem (AUEC) e Vice-Presidente da Federação Baiana de Canoagem (FEBAc) lembra bem quando Alex apareceu no começo de tudo, por volta do ano 2000, “quando a gente treinava na Fazenda Santa Helena já no final do Camamuzinho. Era tudo muito simples ainda, estrutura quase nenhuma. E eu nunca esqueço do primeiro dia dele”.
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Continua contando o dirigente “Alex pegou um barco pela primeira vez um C1 e simplesmente saiu remando. Mas não era “tentando remar”, não. Ele já saiu remando direito, com equilíbrio, com noção. Aquilo ali já chamava atenção. Foi beirando as baronesas, desceu sentido Ponte Nova e ali você já percebia que tinha algo diferente. Não demorou muito e ele começou a ganhar as etapas do Campeonato Baiano que a gente disputava. Foi tudo muito rápido”. Alex foi isso. Um atleta que já nasceu com talento. Foi deslanchando até chegar à Seleção Brasileira. Porque ele tinha tudo.
“Era, como o próprio Jefferson dizia, um talento do nível dos grandes. Daqueles que a gente olha e sabe que poderia ter ido ainda mais longe”, frisa o Marcão da Canoagem.
Ao olhar para trás, Alex não mede as palavras. “Um livro é pouco para contar a história de Lacerda. Ele deu o sangue pela canoagem. “Minha própria trajetória, rápida, intensa e interrompida ajuda a dimensionar o que poderia ter sido. Mas, mais do que isso, ajuda a explicar o que foi construído. Porque, mesmo nas histórias que não chegaram até o fim, como a minha, há marcas profundas de quem fez o caminho existir", filosofa Alex Silva.
Por Wesley Faustino; pesquisador, historiador, escritor, especialista em Gestão Pública e Gestão Ambiental e ex-vice-prefeito de Ubatã.