Do golpe à ditadura: como abril de 1964 mudou o rumo da democracia brasileira
O mês que consolidou os efeitos do golpe de 1964 e marcou o início de uma nova era no Brasil.
Foto: Evandro Teixeira / Acervo IMS
O mês de abril marcou, para muitos brasileiros, o tempo do medo. Foi nesse período que se consolidou o verdadeiro início da ditadura — não apenas como um evento político, mas como uma ruptura profunda na vida cotidiana, nas liberdades individuais e na própria forma de pensar o país.
Abril deixou de ser apenas um mês no calendário para se tornar símbolo de silêncio imposto, de vozes caladas à força e de direitos suspensos sob a justificativa da ordem. É nesse contexto que se insere a compreensão dos acontecimentos que culminaram no golpe militar de 1964 — um processo que não se explica por um único fator, mas por uma convergência de crises, tensões e disputas de poder. O mês de Março de 1964, inflação, crise e o caminho para o golpe militar.
O dia 31 de março é uma das datas mais complexas e debatidas da historiografia brasileira. Em 2026, ao olharmos para os eventos de 1964, o papel do historiador e do pesquisador torna-se fundamental para separar o mito da realidade documental e entender como esse episódio moldou as instituições que conhecemos hoje. O dia 31 de março de 1964 não é apenas uma data no calendário; é o ponto de ruptura que encerrou a Quarta República e deu início a um período de 21 anos de regime militar no Brasil. Compreender este dia exige uma análise que vá além das paixões políticas, focando na conjuntura social, econômica e nas tensões da Guerra Fria que permeavam o país na década de 1960.
O governo de João Goulart (Jango) enfrentava uma paralisia política profunda. Suas propostas, conhecidas como Reformas de Base (que incluíam reforma agrária, educacional e eleitoral), geravam forte oposição em setores conservadores, na cúpula da Igreja Católica e no alto comando das Forças Armadas. A inflação alta e a radicalização dos movimentos sociais — como as Ligas Camponesas e a Revolta dos Marinheiros — criaram um clima de instabilidade. Para os opositores, o Brasil corria o risco de se tornar uma “nova Cuba”; para os apoiadores de Jango, o que estava em jogo era a justiça social e a soberania nacional.
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Para o leitor ter uma ideia, a inflação anual em 1964 bateu a casa de 90% — sendo, em média, de 5% a 6% ao mês. Hoje, no Brasil, a meta inflacionária está na casa de 3% a 5% ao ano. Em 1964, isso acontecia em apenas um mês. Esse ambiente de desorganização econômica contribuiu — e muito — para o clima de tensão. Mais do que números, a inflação daquele período revela o impacto direto na vida das pessoas, que viam seus salários perderem valor quase que diariamente, em meio a um país em transformação.
Embora o levante seja datado de 31 de março, os movimentos decisivos começaram na madrugada desse dia, quando o general Olympio Mourão Filho partiu de Juiz de Fora (MG) em direção ao Rio de Janeiro com suas tropas. O que se seguiu foi uma rápida queda. Sem resistência armada organizada por parte de Jango — que afirmou não querer ver “sangue brasileiro derramado” — o presidente deixou o Rio, partindo para Brasília e, posteriormente, para o exílio no Uruguai. Na historiografia contemporânea e nas ciências sociais, o termo predominante é Golpe de Estado, pois houve a interrupção de um mandato presidencial legítimo por meios não constitucionais. No entanto, durante décadas, o regime utilizou o termo Revolução, argumentando que o movimento teve apoio de setores civis, como demonstrado nas “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”.
O impacto do 31 de março não se restringiu aos palácios em Brasília. Ele reconfigurou a política municipal em todo o país. No interior da Bahia, por exemplo, as câmaras de vereadores e as prefeituras precisaram se adaptar ao novo modelo de bipartidarismo (ARENA e MDB) e à vigilância dos órgãos de segurança. Acompanhar a história das casas legislativas durante esse período revela como as lideranças locais navegaram entre a adesão ao regime e a resistência silenciosa para manter a autonomia de suas comunidades.
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Atualmente, o 31 de março é um dia de memória e reflexão sobre a importância da democracia e do Estado de Direito. Estudar essa data é essencial para entender a transição iniciada em 1985 e a construção da Constituição de 1988. A história, como o fluxo de um rio, não pode ser apagada; ela deve ser documentada com precisão para que as futuras gerações compreendam que a estabilidade das instituições é o bem mais precioso de uma nação.
A partir desse ponto de ruptura, abril se impôs como o mês em que os efeitos do golpe se tornaram concretos e visíveis. Para muitos brasileiros, foi o início de uma era marcada pela repressão, pela censura e pela vigilância constante. Intelectuais, trabalhadores, estudantes e cidadãos comuns passaram a conviver com o medo — medo de falar, de escrever, de existir politicamente.
No entanto, é preciso compreender que esse período não foi vivido de maneira uniforme. Enquanto parte da população sentia diretamente o peso da repressão, outra parcela, por diferentes razões, via naquele momento uma resposta às instabilidades políticas anteriores. Essa dualidade ajuda a explicar as complexidades históricas que ainda hoje cercam a memória da ditadura no Brasil.
Ainda assim, para aqueles que tiveram suas vidas atravessadas pela violência do Estado, abril não foi apenas a continuidade de um processo político — foi o começo de uma era de incertezas, perdas e resistência. Uma época em que resistir, muitas vezes, significava apenas sobreviver e manter viva, ainda que em silêncio, a esperança de que dias mais livres voltariam.
Nota do Autor: Como pesquisador, nossa missão é iluminar os fatos através de documentos, atas e relatos, permitindo que a sociedade conheça seu passado em toda a sua complexidade. Wesley Faustino é pesquisador, historiador, escritor, especialista em Gestão Pública e Gestão Ambiental e ex-vice-prefeito de Ubatã.