Publicado originalmente em 1956, o romance Grande Sertão: Veredas consolidou João Guimarães Rosa como um dos maiores gênios da literatura mundial. Médico e diplomata, Rosa revolucionou a escrita ao criar uma linguagem própria, profundamente enraizada no vocabulário do sertão mineiro, mas capaz de dialogar com as mais complexas tradições filosóficas e religiosas. A obra não é apenas um relato de jagunçagem; é uma investigação sobre a alma humana, o bem, o mal e a natureza do amor.
A narrativa é conduzida pela voz de Riobaldo, um ex-jagunço que, já idoso, tenta organizar suas memórias em uma longa meditação. Sua jornada começa no coração das lutas entre bandos armados, mas o eixo central de sua vida é a figura de Diadorim. Conhecido no bando como o valente Reinaldo, Diadorim é o guia espiritual e a paixão silenciosa de Riobaldo. Durante toda a cronologia da guerra sertaneja, Riobaldo vive o tormento de amar um companheiro de armas, um sentimento que ele considera proibido e que o leva a questionar sua própria sanidade e a existência de forças demoníacas no mundo.
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O que Riobaldo não sabe, e o leitor só descobre no clímax trágico da história, é que Diadorim era, na verdade, Maria Deodorina Quitéria de Aguiar. Filha do chefe Joca Ramiro, ela assumiu a identidade masculina para vingar a morte do pai em um mundo onde a guerra era restrita aos homens. Diadorim abdica de sua feminilidade e de sua identidade para cumprir um rígido código de honra, vivendo um amor casto e impossível ao lado de Riobaldo, sem nunca revelar seu segredo em vida.
A batalha final contra o traidor Hermógenes sela o destino dos personagens. Diadorim luta com fúria divina e consegue derrotar o inimigo, mas paga com a própria vida. É apenas no momento do banho fúnebre, quando o corpo é despido para o sepultamento, que a verdade vem à tona: o guerreiro mais temido era uma mulher. Para Riobaldo, essa revelação é o golpe final. O amor que ele sentia torna-se, então, algo absoluto e impossível de se realizar neste mundo, pois a descoberta da verdade ocorre exatamente no momento da perda definitiva.
A narrativa se encerra com Riobaldo tentando compreender o que viveu e o que restou de suas escolhas. É nessa reflexão que se revela a dimensão maior da obra. Guimarães Rosa constrói um universo inteiro a partir de Minas Gerais para nos dizer que o sertão está em toda parte — é o lugar onde o homem se encontra com seus próprios abismos. No fim, a travessia de Riobaldo nos ensina que o sertão não tem limites geográficos; ele é, na verdade, o tamanho do mundo e o tamanho da nossa própria coragem de enfrentar o desconhecido.
Por Wesley Faustino; pesquisador, historiador, escritor, especialista em Gestão Pública e Gestão Ambiental e ex-vice-prefeito de Ubatã