Ubatã tem 1.928 assalariados e começa a se preparar para o fim da escala 6x1
A partir de 15 de dezembro, trabalhadores passam a ter dois dias de repouso e jornada máxima cai para 42 horas; em 2027.
Foto: Garcia Jr/Interiorano
Por trás de uma escala de trabalho existem horas. Mas também existem vidas. Existe o trabalhador que acorda cedo e passa seis dias entre balcões, caixas, prateleiras, cozinhas, escritórios e outros postos para ter apenas um dia de descanso.
E existe, do outro lado, o empresário que abre as portas, paga salários, enfrenta custos e precisa manter uma equipe funcionando. A partir de 15 de dezembro, essas duas realidades começam a experimentar uma nova organização da semana de trabalho.
A Emenda Constitucional 141/2026, promulgada em 16 de outubro, colocou fim à escala 6x1 e estabeleceu uma transição para cinco dias de trabalho e dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial. Nos primeiros 60 dias, a jornada máxima cai de 44 para 42 horas. Um ano depois, chega a 40 horas.
Em Ubatã, a mudança coloca uma pergunta que interessa aos dois lados: como ampliar o tempo de quem trabalha sem impedir que empresas continuem funcionando?
Os números ajudam a dimensionar o mercado local. Os dados mais recentes do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE), divulgados pelo IBGE em 2026 e referentes ao ano-base de 2024, apontam que Ubatã possuía 476 empresas e outras organizações atuantes, 2.357 pessoas ocupadas e 1.928 assalariados.
O salário médio mensal registrado ficou em aproximadamente R$ 2.551. O CEMPRE reúne informações sobre empresas e organizações formais e contabiliza, entre outros indicadores, pessoal ocupado e pessoal assalariado. Os números de 2024 são os mais recentes consolidados dessa pesquisa. Mas é importante fazer uma distinção: Ubatã ter 1.928 assalariados não significa que existam 1.928 trabalhadores no 6x1.
O levantamento não mostra quantos empregados do município trabalham especificamente seis dias para descansar um. Sem esse recorte, qualquer número local seria apenas estimativa. Nacionalmente, entretanto, já existe uma fotografia. Um levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego com dados do eSocial identificou 14,8 milhões de vínculos na escala 6x1, correspondentes a 33,2% daqueles em que foi possível identificar a escala.
Outros 29,7 milhões, ou 66,8%, já operavam em cinco dias de trabalho por dois de descanso. Comércio, alimentação e outros segmentos de serviços estão entre as atividades com presença relevante da escala. Mas os 33,2% nacionais não podem simplesmente ser aplicados aos 1.928 assalariados de Ubatã. A estrutura do emprego varia de cidade para cidade.
Brasília discute 44 horas, 42 horas e 40 horas. Para quem está seis dias no trabalho, porém, existe uma medida mais simples: tempo. Tempo para acompanhar os filhos. Para descansar. Para estudar. Para cuidar da saúde. Para visitar a família. Para ir à igreja. Ou simplesmente para recuperar o corpo antes de começar outra semana.
A nova regra garante dois dias de repouso semanal remunerado, sendo um deles preferencialmente aos domingos. E traz uma proteção fundamental: a redução da jornada não poderá reduzir o salário. É isso que transforma a mudança em algo maior que uma alteração na folha de ponto.
Mas uma empresa não fecha necessariamente dois dias porque cada funcionário ganhou duas folgas. Supermercados, farmácias, restaurantes, padarias, lojas e outros estabelecimentos poderão continuar funcionando conforme as regras de cada atividade. O que muda é quem estará trabalhando em cada horário.
Empresas poderão precisar rever escalas, montar revezamentos, redistribuir jornadas e reorganizar equipes. Uma loja com dois funcionários enfrentará uma realidade diferente de um supermercado com dezenas. Um estabelecimento aberto oito horas por dia terá um desafio diferente de outro que funciona durante 12 ou 14 horas.
Por isso, seria precipitado afirmar que toda empresa precisará contratar mais gente — ou que a mudança será facilmente absorvida por todas. Cada negócio terá sua própria conta. E os pequenos negócios? Esse talvez seja um dos pontos que mais interessam a cidades como Ubatã.
A própria Emenda Constitucional reconheceu que MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte poderão precisar de tratamento específico. O texto permite que uma futura lei complementar estabeleça medidas de adaptação para esses negócios, desde que vinculadas à manutenção do emprego. Mas atenção: isso não significa que já exista hoje subsídio, benefício ou exceção automática para a pequena empresa. Essas medidas ainda dependem de regulamentação. Até lá, o calendário geral precisa ser considerado também pelos pequenos negócios.
Quando muda?
A transição será feita em duas etapas.
16 de outubro de 2026 — Promulgação
A Emenda Constitucional 141 passa a integrar a Constituição.
15 de dezembro de 2026 — Começa a escala 5x2
A jornada máxima passa de 44 para 42 horas semanais, com dois dias de repouso remunerado, sem redução salarial.
Dezembro de 2027 — Jornada chega a 40 horas
Após mais 12 meses, o limite máximo cai para 40 horas por semana. Convenções e acordos coletivos poderão participar da organização das jornadas dentro dos limites constitucionais.
Quem fica fora?
A emenda também estabeleceu exceções. As regras de duração e controle da jornada não se aplicam, nas condições previstas, aos empregados que reúnam simultaneamente duas características: diploma de nível superior e remuneração mensal de pelo menos 2,5 vezes o teto do Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Portanto, não basta ter formação superior. As duas condições precisam existir ao mesmo tempo.
Mesmo nesses casos, a garantia do repouso semanal continua preservada e negociações coletivas podem estabelecer condições específicas. A mudança também não altera a jornada dos servidores públicos da União, estados, Distrito Federal e municípios.
A mudança vai chegar ao balcão de Ubatã
A decisão foi tomada em Brasília. Mas será nas cidades que ela deixará de ser texto constitucional para virar rotina. Quando o trabalhador receber sua nova escala. Quando uma família perceber que ganhou mais tempo junta. Quando um comerciante sentar com o contador e descobrir como distribuir as horas da equipe.
Quando um supermercado montar seu novo revezamento. Quando trabalhadores e empresários começarem a descobrir, na prática, quanto custa — e quanto vale — reorganizar o tempo. Hoje, Ubatã sabe que possui 1.928 assalariados no levantamento mais recente.
Ainda não sabe quantos deles vivem o 6x1. Também não sabe qual será o impacto financeiro sobre os negócios locais. Essas respostas não estão numa estatística nacional. Estão nas ruas de Ubatã.
Por isso, o Interiorano vai avançar nessa cobertura ouvindo trabalhadores, comerciantes, empresários, contadores e profissionais das relações trabalhistas. Porque o debate deixou de ser apenas sobre acabar com uma escala. Agora é sobre como Ubatã vai reorganizar o tempo de quem trabalha — e a rotina de quem emprega. (Interiorano)