Mulher resgatada em Gongogi já havia pedido socorro outras duas vezes por meio do filho
Delegado revela que vítima já havia feito pedidos anteriores de ajuda; município abriu apuração para reconstruir quando os bilhetes foram recebidos
Foto: divulgação
O caso da mulher de 22 anos resgatada de uma situação de cárcere privado e violência doméstica em Gongogi, no sul da Bahia, ganhou um novo e preocupante capítulo. Antes do bilhete que levou o caso definitivamente às forças de segurança, a vítima já havia enviado outros dois pedidos de ajuda por meio do filho de apenas 7 anos.
A informação foi detalhada pelo delegado Rodrigo Fernando de Souza, responsável pelo caso na Polícia Civil. A descoberta dos bilhetes anteriores ajuda a explicar uma das frases mais fortes escritas pela mulher no último pedido de socorro:
“Vocês pediram pra eu esperar a ajuda, mas só que essa ajuda nunca chegou.”
Diante da nova informação, a Prefeitura de Gongogi determinou uma apuração interna na unidade escolar onde a criança entregava as mensagens. Segundo a gestão municipal, a investigação administrativa deverá reconstruir todo o fluxo das comunicações entregues pela criança, verificando quando cada mensagem chegou à escola, quem teve acesso ao conteúdo e quais providências foram tomadas.
A Prefeitura informou ainda que os bilhetes foram posteriormente encaminhados à polícia pela diretora da unidade de ensino. Em manifestação pública, a administração municipal ressaltou que o caso envolve uma mulher possivelmente vítima de violência e uma criança, exigindo cautela, sigilo e proteção. As secretarias responsáveis afirmaram estar à disposição da Polícia Civil e dos órgãos de proteção para colaborar com a investigação e acompanhar a família.
“Estou pedindo ajuda mais uma vez”
Os novos detalhes dão ainda mais peso ao último bilhete entregue pelo menino. A vítima deixou claro que aquele não era o primeiro pedido. Em um dos trechos, escreveu:
“Estou escrevendo para pedir ajuda mais uma vez, porque estou que não aguento mais.”
A mulher também relatava que sofria ameaças de morte quase diariamente. Em outra mensagem, descreveu de forma mais específica o tipo de ameaça que atribuía ao companheiro, afirmando que ele dizia que a mataria com um facão caso ela tentasse ir embora e que cortaria seu cabelo. Além dos textos, a vítima chegou a fazer, em uma das páginas do caderno do filho, o desenho de uma mulher chorando.
Sem conseguir sair livremente de casa, a mulher passou a utilizar o próprio filho como meio para tentar fazer os pedidos de socorro chegarem a outras pessoas. O menino levava os bilhetes para a escola. Foi através dessa estratégia que a situação acabou chegando às autoridades.
O caso chama atenção porque a criança, ainda com apenas 7 anos, acabou funcionando como elo entre a mãe isolada dentro da residência e a rede externa de proteção. A vítima também possui outro filho, de apenas 1 ano.
Segundo informações da Polícia Civil, a jovem contou que vive com o suspeito desde os 13 anos de idade. O relacionamento já durava aproximadamente oito anos. Durante esse período, conforme o depoimento da vítima, ela teria enfrentado sucessivos episódios de ameaças e agressões. Mais recentemente, a situação teria se agravado.
A mulher afirma que passou a ser impedida de sair de casa e até mesmo de manter contato com a própria mãe e outros familiares. Foi nesse cenário que começaram os pedidos de ajuda através dos bilhetes.
Depois que a situação finalmente chegou às forças de segurança, policiais passaram a realizar averiguações e monitorar a movimentação da residência. Segundo a Polícia Civil, durante esse acompanhamento foi observado que a mulher praticamente não saía do imóvel, reforçando as suspeitas apresentadas na denúncia. Na quarta-feira (2), uma ação da Delegacia Territorial de Gongogi resultou na prisão do companheiro da vítima. Ele tem 27 anos e sua identidade não está sendo divulgada.
Após ser preso, o suspeito passou por audiência de custódia em Ubaitaba, nesta quinta-feira (3). A Justiça decidiu pela conversão da prisão em preventiva, fazendo com que ele permaneça custodiado enquanto o caso continua sendo investigado. A previsão é de que seja posteriormente transferido para o Conjunto Penal de Itabuna.
A prisão preventiva não representa condenação. O investigado terá direito ao contraditório e à ampla defesa durante o processo.
Agora, uma pergunta também recai sobre os bilhetes anteriores
Com a revelação de que houve pedidos de ajuda anteriores, uma nova frente passa a acompanhar a investigação criminal: o que aconteceu entre a entrega dos primeiros bilhetes e o acionamento efetivo das autoridades? Essa é justamente a questão que a apuração interna determinada pela Prefeitura deverá tentar responder.
Será necessário esclarecer quando cada mensagem foi entregue, quem tomou conhecimento delas e como ocorreu o encaminhamento dentro da unidade escolar. A frase escrita pela própria vítima — dizendo que havia sido orientada a esperar por uma ajuda que não chegava — coloca esse intervalo de tempo no centro das atenções.
A Polícia Civil prossegue com as investigações sobre as agressões, ameaças e o suposto cárcere privado. Paralelamente, a administração municipal deverá analisar a atuação da unidade escolar diante dos pedidos de socorro. Por envolver violência doméstica, uma vítima jovem e duas crianças, as autoridades reforçam a necessidade de preservar a identidade da mulher e dos menores.
O Interiorano continuará acompanhando tanto o inquérito policial quanto a apuração aberta pela Prefeitura de Gongogi para esclarecer o caminho percorrido pelos bilhetes antes do resgate da vítima. (Interiorano)