“Querem apagar nossa história”: vídeo da CBCa provoca reação de nomes da canoagem baiana
Técnico Pinda provoca reação de personagens históricos da modalidade; Jefferson Lacerda, José Carlos Lona e Rodrigo contestam narrativa
Imagem gerada por IA
Um vídeo publicado na página oficial da Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) colocou fogo numa discussão que há muito tempo circula nos bastidores da modalidade: quem construiu as bases que hoje abastecem a canoa brasileira?
As declarações de Lauro de Souza Júnior, o Pinda, técnico da Seleção Brasileira de Canoagem Velocidade, provocaram uma reação imediata de atletas, ex-atletas, treinadores e antigos dirigentes ligados à história da modalidade na Bahia.
Nos comentários da própria publicação, personagens históricos contestaram a narrativa apresentada no vídeo e cobraram reconhecimento ao trabalho desenvolvido durante mais de três décadas, principalmente nas bases de Ubaitaba, Itacaré e outras cidades baianas.
O que poderia ser apenas mais uma publicação institucional transformou-se numa espécie de acerto de contas com a memória da canoa brasileira. E uma pergunta passou a dominar a discussão entre os baianos: como falar da construção da base brasileira a partir de 2022 sem reconhecer o trabalho realizado décadas antes?
Jefferson: “Querer plagiar a história” Uma das manifestações mais contundentes partiu de Jefferson Lacerda, atleta olímpico nos Jogos de Barcelona, em 1992, e posteriormente técnico da Seleção Brasileira durante oito anos.
Jefferson esteve dos dois lados da formação esportiva: primeiro como atleta e depois trabalhando diretamente na preparação de novas gerações. Por isso, reagiu duramente.
“Rapaz, você é muito cara de pau, isso sim. A canoa foi trabalhada e continua sendo trabalhada aqui na Bahia”, escreveu.
Jefferson também questionou a origem dos atletas posteriormente convocados para representar o Brasil.
“Todos atletas que ele citou saem daqui de nossas bases e foram convocados para a Seleção devido aos resultados conquistados em competições nacionais.”
Na sequência, foi ainda mais enfático:
“Dizer que ele e Álvaro, desde 2022, vêm fazendo a base da canoa brasileira é querer plagiar a história da canoa brasileira.”
Para Jefferson, as bases baianas “foram e continuam sendo o alicerce da modalidade canoa” e merecem mais respeito e gratidão. Uma história que começou décadas antes
A reação não se sustenta apenas na memória afetiva daqueles que participaram desse processo. A Associação Cacaueira de Canoagem (ACC), de Ubaitaba, e a Associação de Canoagem de Itacaré (ACI) acumulam, segundo os dados apresentados à reportagem, mais de 25 títulos nacionais por equipes na Canoagem Olímpica de Velocidade e na Canoagem Maratona.
Por essas bases passaram diferentes gerações de atletas que alcançaram Campeonatos Brasileiros, Sul-Americanos, Pan-Americanos, Mundiais e a Seleção Brasileira. A construção reivindicada pelos baianos remonta ao início dos anos 1990.
O historiador e escritor Wesley Faustino, que pesquisa a história da canoagem baiana e trabalha na biografia de Jefferson Lacerda, aponta um episódio ocorrido em 1991, durante os Jogos Pan-Americanos de Havana, em Cuba, como parte importante desse processo.
Segundo Faustino, Jefferson teve naquele período maior contato com a canoa canadense e percebeu o potencial da modalidade.
“No mesmo ano, Jefferson Lacerda, com o apoio de João Tomasini, trouxe de Havana, em Cuba, uma canoa para o Brasil e introduziu a modalidade na Bahia. A partir daquele momento começou um processo que posteriormente ganharia força em Ubaitaba e se espalharia para outras bases baianas e do Brasil.”
Para o pesquisador, discutir a formação da canoa brasileira exige retornar aos documentos e às pessoas que participaram dos primeiros anos dessa construção. José Carlos Lona coloca números na discussão
Outro personagem histórico que reagiu foi José Carlos Lona Almeida, ex-presidente da Federação Baiana de Canoagem (FEBAC) e ex-presidente do Conselho Fiscal da CBCa.
“É muita cara de pau desse cara. Ele nem cita o trabalho da Bahia”, escreveu.
Lona levou para o debate um dado ainda mais provocativo. Segundo ele, 20 dos 21 atletas que compõem as seleções brasileiras de canoa em 2026 seriam baianos.
“20 atletas da Seleção Brasileira são da Bahia. E a Seleção é composta por 21 atletas”, afirmou.
O número citado pelo ex-dirigente coloca no centro da discussão uma questão fundamental: a diferença entre formar um atleta na base e trabalhar com ele depois que chega à Seleção Brasileira. Lona também mencionou investimentos da Sudesb, programas como Bolsa Esporte e Bolsa Atleta, o trabalho da Federação Baiana e a atuação cotidiana das associações existentes em municípios como Ubaitaba, Itacaré, Ubatã e Maraú.
A crítica é que o atleta que chega a um centro de treinamento nacional carrega consigo anos de formação anterior. Antes da convocação, alguém precisou descobrir o talento, ensinar a técnica, disponibilizar barco e remo, levar o jovem às primeiras competições e criar condições para que permanecesse no esporte.
“Estão pegando o barco andando”
Rodrigo, identificado nas redes sociais como @rodrigo_canoa1981, também reagiu às declarações.
“Falando besteira, rapaz. Tu não sabe de nada sobre a história da canoagem.”
Ele lembrou que a formação da canoa já acontecia em Ubaitaba na década de 1990 e citou episódios envolvendo a Seleção em 1996, além de participações em competições sul-americanas e nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em 1999. Uma de suas frases acabou sintetizando o sentimento manifestado por diversos baianos:
“Esse cara quer apagar nossa história.”
E completou: “Tem muitas histórias da canoagem que muita gente não sabe o que passamos. Estão pegando o barco andando.”
Da Bahia para o mundo o “barco”, como definiu Rodrigo, realmente já navegava havia décadas. Jefferson Lacerda disputou os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 e posteriormente trabalhou durante oito anos como técnico da Seleção.
Ubaitaba consolidou-se como um dos grandes celeiros brasileiros da modalidade. Itacaré tornou-se outra importante base formadora. Posteriormente, Ubatã e outros municípios passaram a integrar essa corrente de desenvolvimento.
A trajetória também foi marcada pela abertura de novos espaços. Luciana Costa tornou-se a primeira campeã brasileira da canoa feminina, ajudando a abrir caminho para mulheres numa modalidade historicamente dominada por homens.
A ex-atleta Camila Lima, atualmente presidente da Federação Baiana de Canoagem, permanece ligada à organização da base estadual. Segundo as informações reunidas pela reportagem, a FEBAC chega a realizar até 14 etapas do Campeonato Baiano, além de participar das Copas Brasil e Campeonatos Brasileiros que integram o caminho competitivo para formação das seleções de base, sub-23 e sênior.
Na paracanoagem, Martinha tornou-se bicampeã mundial. E das estruturas baianas surgiram nomes que alcançaram o mais alto nível da modalidade, entre eles Isaquias Queiroz e Erlon Souza, além de profissionais que chegaram às comissões técnicas nacionais, como Figueroa Conceição e Pedro Sena.
O ponto central da polêmica
A discussão aberta pelo vídeo não precisa ser reduzida à tentativa de retirar os méritos de Pinda ou da atual comissão técnica. O trabalho desenvolvido no alto rendimento faz parte da evolução da canoagem brasileira.
O ponto levantado pelos baianos é outro: formação de base e desenvolvimento de atletas de alto rendimento não começam necessariamente no mesmo lugar nem no mesmo momento. Os centros modernos, a ciência esportiva e as atuais estruturas da Seleção fazem parte de um processo que teve capítulos anteriores.
Antes deles, associações trabalharam com recursos limitados. Treinadores descobriram jovens às margens dos rios. Dirigentes buscaram dinheiro para viagens. Famílias ajudaram atletas a permanecer no esporte. E muito antes de um competidor vestir a camisa do Brasil, alguém colocou um remo em suas mãos pela primeira vez.
Uma geração decidiu responder
Os comentários na própria página da CBCa mostram que parte dessa geração decidiu não permanecer em silêncio diante da interpretação histórica apresentada no vídeo. Jefferson Lacerda confrontou diretamente as declarações. José Carlos Lona levou números ao debate. Rodrigo recuperou episódios de quem viveu a modalidade quando a estrutura era muito menor.
Outros integrantes da comunidade baiana engrossaram as manifestações.
No fim, o vídeo acabou produzindo um efeito maior do que uma simples discussão nas redes sociais: reabriu o debate sobre a preservação da memória da canoagem brasileira. A história da modalidade não pertence exclusivamente a uma pessoa, comissão técnica, associação ou estado.
Da mesma forma, reconhecer os méritos do atual ciclo não exige apagar aqueles que vieram antes. Pinda e a atual comissão técnica fazem parte dessa história. A reação dos baianos é contra a possibilidade de serem apresentados como o começo dela.
Porque, muito antes de 2022, a canoa já estava sendo trabalhada na Bahia. Havia atletas competindo, associações formando gerações, treinadores ensinando, dirigentes organizando campeonatos e municípios construindo uma cultura esportiva em torno das águas.
Talvez a frase publicada por Rodrigo seja justamente a imagem que melhor sintetiza toda a controvérsia: quando alguns chegaram, o barco já estava andando. (Interiorano)