De Ubaitaba a Barcelona: recorte revela saga de Jefferson antes da Olimpíada de 1992
Documento do jornal Zero Hora localizado durante pesquisa de Wesley Faustino resgata as dificuldades enfrentadas por Jefferson Lacerda e Álvaro Koslowski
Um recorte do jornal Zero Hora, publicado em 21de julho de 1992 e localizado durante as pesquisas para a biografia do canoísta Jefferson Lacerda, ajuda a reconstruir um dos episódios mais simbólicos da participação pioneira da canoagem brasileira nos Jogos Olímpicos de Barcelona. A reportagem, intitulada “Koslowski e Lacerda chegaram de ônibus”, foi escrita pela jornalista Cláudia Coutinho, enviada especial do jornal a Barcelona, e registrou os dias que antecederam a estreia olímpica dos dois atletas.
O documento integra o conjunto de fontes jornalísticas reunidas pelo pesquisador e escritor Wesley Faustino para a produção do livro biográfico sobre Jefferson Bispo Lacerda, canoísta de Ubaitaba que, em 1992, ajudou a colocar o Brasil pela primeira vez nas provas olímpicas de canoagem velocidade. A reportagem do Zero Hora revela uma história que, mais de três décadas depois, ajuda a dimensionar as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros brasileiros. Antes de chegar a Barcelona, Jefferson Lacerda e o gaúcho Álvaro Koslowski haviam passado pela Tchecoslováquia, onde realizaram parte da preparação e tiveram contato com adversários, equipamentos e estruturas muito mais avançadas do que aquelas disponíveis aos atletas brasileiros.
A passagem pela Europa permitiu à dupla observar de perto as condições encontradas pelos principais competidores internacionais. Segundo o relato de Cláudia Coutinho, as raias mais modernas possuíam pistas destinadas ao aquecimento e equipamentos capazes de registrar a velocidade das remadas. Depois da passagem por Bratislava, na então Tchecoslováquia, Jefferson e Álvaro seguiram de ônibus até Barcelona. A longa viagem somou-se ao desgaste dos treinamentos e competições realizados durante a preparação. Quando a jornalista os encontrou na Vila Olímpica, os dois estavam em Barcelona havia quatro dias. Naquela semana, optaram por uma programação menos intensa, destinada principalmente à manutenção do ritmo.
“Estamos na Vila há quatro dias e temos treinado diariamente. Mas fazemos apenas tiros de 400 metros”, explicou Álvaro Koslowski, então com 21 anos, à reportagem.
A viagem, entretanto, não havia sido o maior problema enfrentado pelos brasileiros. Durante uma competição na Tchecoslováquia, o remo de fibra de carbono utilizado por Jefferson Lacerda quebrou. Para uma equipe com estrutura limitada, o acidente poderia comprometer seriamente a participação olímpica. Enquanto outras delegações possuíam remos reservas, os brasileiros não dispunham de outro equipamento. Restava encontrar uma maneira de recuperar aquele que Jefferson tinha em mãos.
“O remo quebrou durante uma competição na Tchecoslováquia. Por isso, precisei fazer um esforço maior”, explicou Jefferson, então com 30 anos.
A solução misturou técnica, improvisação e criatividade. O remo foi recuperado com uma resina e estava novamente em condições de uso quando os atletas chegaram a Barcelona.
“Usamos uma resina estrangeira e um pouco do jeitinho brasileiro”, contou Jefferson à jornalista.
Depois do conserto, o baiano testou o equipamento na raia olímpica, remou forte e assegurou que o problema estava superado. O episódio, aparentemente pequeno diante da dimensão de uma Olimpíada, revela muito sobre as condições em que aquela geração abriu caminho para a canoagem brasileira. Enquanto adversários contavam com equipamentos reservas e estruturas sofisticadas, Jefferson e Álvaro precisavam encontrar soluções para continuar competindo.
A reportagem do Zero Hora também registrou um lado mais descontraído daqueles dias. No intervalo entre o almoço e o treinamento da tarde, Álvaro Koslowski costumava frequentar a sala de videogames da Vila Olímpica. Segundo a jornalista, não havia um jogo preferido — e o desempenho do gaúcho diante das máquinas estava longe daquele apresentado dentro do caiaque. Ao perceber a baixa pontuação em um dos aparelhos que simulavam um carro em alta velocidade, Álvaro brincou com quem acompanhava a cena:
“Não se assustem. Enquanto o parceiro se divertia, Jefferson demonstrava confiança na adaptação da dupla às condições encontradas na Espanha. “Chegamos a Barcelona há quatro dias e já estamos adaptados”, afirmou.
Eram cenas cotidianas da Vila Olímpica, mas que ganham outra dimensão quando observadas mais de três décadas depois. Ali estavam dois brasileiros vivendo pela primeira vez a atmosfera de uma Olimpíada e prestes a participar de um capítulo inaugural da história da modalidade no país.
Jefferson Lacerda e Álvaro Koslowski disputariam as provas do K-2 500 metros e K-2 1.000 metros. A presença dos brasileiros em Barcelona representava um marco para uma modalidade que ainda buscava espaço, estrutura e reconhecimento no Brasil. Às vésperas das competições, a dupla demonstrava consciência das dificuldades, mas também confiança no trabalho realizado durante a preparação europeia.
“Temos sido bastante profissionais e nos empenhado o máximo”, declarou Álvaro ao Zero Hora.
Na mesma reportagem, o gaúcho admitia que o desempenho nos treinamentos permitia alimentar expectativas: “Os treinos que realizamos até nos deixam com a ilusão que poderemos conseguir alguma coisa mais importante.” A medalha não viria. O significado daquela participação, entretanto, ultrapassaria o resultado obtido nas raias de Barcelona.
Jefferson Lacerda e Álvaro Koslowski faziam parte de uma geração que chegava aos Jogos enfrentando limitações que hoje ajudam a compreender o tamanho daquele feito: viajaram de ônibus entre Bratislava e Barcelona, tiveram de reparar um remo de fibra de carbono porque não dispunham de equipamento reserva e encontraram na Europa estruturas de treinamento muito superiores às que conheciam no Brasil.
Ainda assim, estavam lá. Para Jefferson, aquele momento também representava a concretização de uma trajetória iniciada longe dos grandes centros esportivos. O canoísta que saiu de Ubaitaba, no interior da Bahia, chegava à maior competição esportiva do planeta e ajudava a escrever um dos primeiros capítulos olímpicos da canoagem brasileira. Décadas depois, o velho recorte de jornal ganha novo significado.
Guardada no papel, a reportagem de Cláudia Coutinho não registra apenas a chegada de dois atletas a Barcelona. Preserva detalhes de uma época, das dificuldades materiais, da preparação e da expectativa daqueles que estavam abrindo uma rota que seria percorrida por outras gerações. É justamente por isso que documentos como esse ocupam lugar importante na pesquisa para a biografia de Jefferson Lacerda. Eles permitem reconstruir não apenas resultados esportivos, mas também os pequenos acontecimentos que cercaram a realização de um sonho. Naquela viagem de 1992, havia um ônibus atravessando a Europa, um remo quebrado e posteriormente consertado, dois atletas cansados e uma Olimpíada à espera. E havia, sobretudo, uma história começando a ser escrita nas águas de Barcelona.
Fonte histórica: Jornal Zero Hora, 1992. Reportagem “Koslowski e Lacerda chegaram de ônibus”, de Cláudia Coutinho, enviada especial a Barcelona. Recorte utilizado na pesquisa de Wesley Faustino para a biografia do canoísta Jefferson Lacerda. Recorte do arquivo pessoal de Alvaro Acco Koslowski.
Wesley Faustino é escritor, historiador e pesquisador, dedicado à preservação da memória política, cultural, esportiva e institucional de Ubatã e do sul da Bahia. Atualmente pesquisa e escreve a biografia do canoísta Jefferson Lacerda.