O Opala que virou símbolo da gratidão em Ubatã ao Dr. César Monteiro Pirajá
Preservado pela família há 47 anos, o Chevrolet Opala simboliza amizade, gratidão e o legado deixado pelo médico
Foto: arquivo familiar
Entre os muitos carros que já percorreram as ruas de Ubatã, poucos carregam uma história tão especial quanto o Opala pertencente ao médico Dr. César Monteiro Pirajá. Mais do que um veículo, o automóvel se transformou em um símbolo de amizade, reconhecimento e gratidão, preservado por gerações da família até os dias atuais.
A história foi relembrada por sua filha, Isaura Pirajá, que guarda com carinho as lembranças de um episódio marcante vivido pela família. Tudo começou durante uma viagem para a região de Maraú. Isaura estava presente quando o carro da família sofreu um grave acidente na estrada que leva à Ilha Grande, terra natal do seu pai. O veículo capotou e teve perda total.
Na época, além de exercer a medicina e conquistar o respeito da população ubatense, Dr. César também mantinha atividades ligadas à zona rural. A notícia do acidente rapidamente sensibilizou amigos próximos, que decidiram fazer algo muito além de uma simples demonstração de solidariedade.
Dez amigos se uniram e resolveram comprar um automóvel novo para presenteá-lo. O modelo escolhido foi um Chevrolet Opala, lançado recentemente naquele período e considerado um dos carros mais desejados do Brasil. Segundo Isaura, o gesto foi motivado pelo enorme carinho que a comunidade tinha por seu pai.
“Os amigos ficaram sensibilizados. Meu pai era uma pessoa muito querida. Eles se juntaram e compraram o Opala para ajudá-lo depois da perda do carro no acidente”, recorda Isaura, mas só lembra no momento, depois de 47 anos, dos nomes Aldo Azevedo, Beto Azevedo, Binha Azevedo, Erasmo Azevedo, João Máximo, Raimundo Baracho e Laudelino Santana.
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O presente ultrapassava o valor material. Era o reconhecimento de uma trajetória construída com dedicação à população, especialmente em uma época em que a figura do médico ocupava papel central na vida das pequenas cidades do interior.
Ao receber o automóvel, Dr. César passou a tratá-lo como um verdadeiro patrimônio afetivo. O Opala tornou-se seu companheiro inseparável, mas também um objeto cercado de cuidados especiais.
“Ele tinha muito carinho pelo carro. Guardava na garagem coberto para não pegar poeira. Não eram todas as pessoas que dirigiam. Na maior parte do tempo era ele mesmo quem conduzia. Depois, um tio meu passou a dirigir para ele e os dois andavam juntos”, conta Isaura.
O tempo passou, as décadas se sucederam e muitos veículos históricos desapareceram das ruas brasileiras. O Opala de Dr. César, porém, sobreviveu. Mais do que isso: permaneceu dentro da própria família. Hoje, o automóvel está sob os cuidados de Isaura Pirajá, que preserva não apenas a máquina, mas toda a memória afetiva que ela representa.
“Acabou ficando comigo. Eu continuo cuidando dele e meu filho também vai cuidar. Depois ficará para o meu neto, que se chama César. A ideia é que passe para as próximas gerações”, afirma.
Ainda hoje, o Opala verde 1979 chama atenção por onde passa. Quando Isaura Pirajá conduz o veículo pelas ruas de Ubatã, olhares se voltam para o automóvel que há décadas faz parte da história da cidade. A admiração da população permanece a mesma. Muitos moradores identificam imediatamente o carro que pertenceu ao Dr. César Monteiro Pirajá e enxergam nele não apenas um clássico da indústria automobilística brasileira, mas uma verdadeira relíquia afetiva de Ubatã, carregada de lembranças, respeito e reconhecimento. Mais do que um carro antigo, o Opala de Dr. César é um monumento sobre rodas à amizade, ao respeito e à gratidão que marcaram uma época de Ubatã.
Por Wesley Faustino; historiador, pesquisador, escritor, especialista em Gestão Pública e Gestão Ambiental e ex-vice-prefeito de Ubatã.