De vendedor de geladinho a referência da canoagem: a história de Seu Igor em Itacaré

Josenildo Monteiro de Jesus superou uma infância de dificuldades e se tornou uma das principais referências da canoagem no sul da Bahia.

Por Por Wesley Faustino

Josenildo Monteiro de Jesus transformou uma infância marcada por dificuldades em uma história de dedicação ao esporte e ao desenvolvimento social através da canoagem. Muito antes de se tornar uma das principais referências da canoagem em Itacaré, Josenildo Monteiro de Jesus, conhecido por todos como Seu Igor ou simplesmente "MeoFio", era apenas um menino curioso que observava, de longe, os eventos realizados às margens do Rio de Contas em Ubaitaba.

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Criado pela avó e pelos tios e tias, Josenildo teve uma infância simples e marcada por desafios. Morador da região próxima à Beira-Rio de Ubaitaba, ele ouvia falar das competições de canoagem e do nome de Jefferson Lacerda, que já despontava como um dos grandes incentivadores da modalidade na Bahia. Mas participar daquele universo parecia algo distante.

"Quando aconteciam os eventos, eu não podia participar. Minha tia não deixava. Então eu ajudava vendendo geladinhos, salgados e laranjas para o público", recorda.

O desejo de remar, no entanto, já existia. Sem condições de ter um caiaque, o jovem improvisava. Com troncos de bananeira retirados dos fundos de casa, construía pequenas jangadas e passava horas navegando próximo às margens do rio. Sem saber, dava ali as primeiras remadas que mudariam sua vida.

Anos depois, já trabalhando em serrarias e exercendo diversas funções para ajudar no sustento da família, Josenildo chegou a Itacaré. Foi na cidade que o destino colocou em seu caminho a pessoa que se tornaria seu maior mentor: Jefferson Lacerda. O encontro aconteceu através de amigos ligados ao ciclismo e ao esporte local. A partir daquele momento nasceu uma relação construída sobre confiança, disciplina e respeito mútuo.

"Jefferson foi uma pessoa que acreditou em mim quando muita gente não acreditava. Ele enxergou potencial onde outros viam apenas um rapaz simples tentando vencer na vida", afirma.

Naquele período, Lacerda trabalhava para consolidar a canoagem em Itacaré, contando com o apoio de pessoas como Sandrinha, Lúcia e diversos colaboradores que ajudaram a plantar as sementes do projeto. Enquanto muitos acreditavam que Itacaré deveria viver apenas do surfe, Lacerda enxergava no Rio de Contas um dos maiores potenciais para a formação de atletas da canoagem brasileira. Com o passar dos anos, Seu Igor passou de aluno e atleta para um dos principais responsáveis pela continuidade do projeto. A confiança depositada por Jefferson era tamanha que ele passou a ser chamado para assumir funções cada vez mais importantes dentro da associação.

"Ele sempre dizia que eu era a pessoa certa para continuar o trabalho quando ele não estivesse presente. Isso foi me dando responsabilidade e me fazendo crescer."

A relação entre os dois ultrapassou os limites do esporte. Para Josenildo, Jefferson tornou-se uma figura paterna. "Eu não tive pai nem mãe presentes na minha formação. Muitas das orientações, conselhos e até das broncas que recebi dele foram fundamentais para o homem que me tornei." Além de atuar na formação de atletas, Seu Igor também construiu sua própria trajetória esportiva. Participou de campeonatos, conquistou títulos e chegou a ser campeão baiano no surfinho, além de campeão brasileiro no K2 e K4 remando com Jefferson Lacerda. 

Mas seu maior legado talvez esteja fora das competições. Após o falecimento de Sandrinha, uma das grandes apoiadoras do projeto, Jefferson incentivou Josenildo a assumir a presidência da Associação de Canoagem de Itacaré (ACI). Mesmo sem experiência administrativa, aceitou o desafio.

"Eu não entendia nada de burocracia. Mas toda vez que surgia uma dúvida, ligava para Jefferson. Ele sempre orientava, apoiava e mostrava o caminho."

Foi também nesse período que a associação conquistou sua sede própria. O espaço, viabilizado graças à articulação de Jefferson, Lúcia e diversos parceiros, tornou-se um importante centro de formação esportiva e social para crianças e adolescentes de Itacaré.

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Hoje, ao olhar para trás, Josenildo vê sua própria história profundamente ligada à de Jefferson Lacerda. De um garoto que improvisava jangadas de bananeira para remar no rio, tornou-se educador, dirigente esportivo e referência para novas gerações de atletas. Para ele, a maior herança deixada por Jefferson não são os títulos, as medalhas ou as participações olímpicas, mas a capacidade de transformar vidas.

"Se hoje a canoagem de Itacaré e da Bahia tem tantos resultados, é porque houve pessoas como Jefferson Lacerda que acreditaram quando ninguém acreditava. Ele plantou sementes que continuam dando frutos até hoje." E entre esses frutos está o próprio Seu Igor, um dos exemplos mais claros de como o esporte pode mudar destinos e construir histórias que vão muito além das águas.

Por Wesley Faustino; pesquisador, historiador, escritor,  especialista em Gestão Pública e Gestão Ambiental e ex-vice-prefeito de Ubatã.


FONTE: interiorano.com.br
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