Patrícia Lencinas, conhecida carinhosamente como "Argentina", jamais imaginou que uma simples aproximação da canoagem mudaria completamente sua rotina e lhe proporcionaria experiências que pareciam impossíveis para alguém com mais de 50 anos de idade.
Natural de Mendoza, na Argentina, Patrícia chegou à Associação de Canoagem de Itacaré (ACI) motivada apenas pela curiosidade. O objetivo inicial era conhecer o ambiente, praticar uma atividade física e desfrutar do contato com o rio. Competir nunca esteve nos seus planos.
"Eu tinha 54 anos e não tinha nenhuma pretensão de disputar competições. Queria apenas remar", relembra. Mas o destino reservava algo diferente. Com o passar dos treinos como aluna da escolinha da ACI, Patrícia ganhou resistência física e passou a participar de provas. Foi nesse período que sua trajetória cruzou de forma mais próxima com a de Jefferson Lacerda, um dos maiores nomes da história da canoagem brasileira.
Segundo ela, um dia, enquanto treinava, foi observada por Lacerda, que logo percebeu seu potencial. "Ele me disse que gostava da forma como eu remava, mas que poderia me ensinar a remada de competição. A partir dali, começou uma transformação."
O aprendizado não foi fácil. Dominar a técnica exigiu dedicação, persistência e muitas horas dentro d'água. Aos poucos, porém, os resultados começaram a surgir. Patrícia passou a participar de campeonatos estaduais e brasileiros, conquistando medalhas e vivendo emoções que jamais imaginara experimentar.
"Eu não era uma atleta explosiva. Meu forte sempre foi a resistência. Mesmo assim, consegui medalhar algumas vezes e viver toda a emoção das competições."
Uma das lutas das quais ela se orgulha foi a mobilização para a criação de categorias destinadas a atletas mais velhos. O pedido foi levado à Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) e acabou sendo atendido, ampliando as oportunidades para praticantes da modalidade em diferentes faixas etárias. Para Patrícia, entretanto, a canoagem vai muito além das medalhas.
"O mais bonito é a convivência. Estar com as crianças, com os jovens, compartilhar experiências e aprender todos os dias. Sempre que eu chegava para remar, saía melhor do que quando entrei."
Ao falar de Jefferson Lacerda, a argentina não esconde a admiração. Ela acredita que a história da canoagem na Bahia seria muito diferente sem a atuação do treinador, atleta olímpico e formador de campeões.
"Ele foi treinador da Seleção Brasileira, defendeu os direitos dos atletas e ajudou a levar a canoagem a outro patamar. A modalidade não seria a mesma sem ele." Patrícia destaca que os ensinamentos recebidos ultrapassaram os limites do esporte. Ele me ensinou muito mais do que remar. Ensinou disciplina, respeito, amizade e dedicação. Sempre me tratou com carinho e respeito."
Hoje, ao olhar para trás, ela se considera privilegiada por ter iniciado uma jornada esportiva que começou quando muitos acreditam que já é tarde para novos desafios.
"Comecei aos 54 anos e vivi coisas que jamais imaginei viver. Aproveitei cada oportunidade ao máximo. Sou muito grata por tudo o que a canoagem e Jefferson Lacerda representaram na minha vida."
A história da "Argentina" prova que nunca é tarde para descobrir novos caminhos, construir amizades e transformar sonhos improváveis em realidade.
Por Wesley Faustino; escritor, pesquisador e historiador, especialista em Gestão Pública e Gestão Ambiente e ex-vice-prefeito de Ubatã.