Aurino Alfaiate deixa legado que marcou o comércio de Ubatã por gerações

História de Aurino Alexandrino de Santana se confunde com o desenvolvimento comercial da cidade

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Há homens que constroem patrimônios. Outros constroem nomes. E existem aqueles raros que conseguem construir ambos, deixando, além de bens materiais, um legado de caráter, trabalho e inspiração capaz de atravessar gerações. Assim foi a trajetória de Aurino Alexandrino de Santana, conhecido por ubatenses de diferentes épocas simplesmente como Aurino Alfaiate , um homem que transformou talento, disciplina e perseverança em uma história de vida que se confunde com o próprio desenvolvimento comercial de Ubatã.

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Aurino nasceu em 9 de janeiro de 1931, na pequena Itaquara, no interior da Bahia, em um Brasil ainda marcado por estradas de barro, lampiões e uma rotina onde o trabalho começava cedo. Filho de Pedro Alexandrino de Santana e Antônia de Souza Carvalho, cresceu em uma família numerosa ao lado dos irmãos Alice, Valdomiro, Almir , carinhosamente chamado de Nengo , Judith e Maria Alexandrina, conhecida como Lora. A infância foi simples, difícil e cercada por limitações materiais, mas também abundante em valores que moldariam toda a sua caminhada: união, respeito, honestidade e fé. Ainda menino, Aurino já ajudava nos afazeres domésticos e fazia pequenos serviços para contribuir com a organização e a sobrevivência da família, aprendendo cedo que a vida não entregava facilidades.

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Na juventude, movido pela necessidade de construir o próprio caminho, deixou sua terra natal e seguiu para Jequié. Levava consigo pouco mais que coragem, disposição e o desejo de vencer. Foi ali que o destino começou a desenhar, com linhas mais firmes, a sua trajetória. Sob os ensinamentos do senhor Vadinho, Aurino conheceu os segredos da alfaiataria, ofício que não apenas lhe garantiria sustento, mas se transformaria em sua identidade para sempre. Mais do que aprender a cortar tecidos e costurar peças, compreendeu que a alfaiataria era uma arte que exigia precisão, paciência, sensibilidade, disciplina e compromisso.

Já dominando a profissão, na década de 1950 mudou-se para Itabuna, cidade que vivia um período de grande expansão econômica impulsionada pela força do cacau e pelo crescimento do comércio regional. Instalou-se em uma pequena alfaiataria no tradicional Beco do Fuxico, um dos pontos mais movimentados e conhecidos da cidade. Foi ali, entre tecidos, linhas, moldes e máquinas de costura, que a vida lhe reservou um dos encontros mais importantes de sua história. Em Itabuna, Aurino conheceu Maria de Lourdes França , mulher que se tornaria sua companheira de vida, parceira de sonhos e mãe de seus quatro filhos. O casamento foi celebrado em 30 de março de 1960, marcando o início de uma união construída sobre amor, cumplicidade, respeito e fé.

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Naquele período, parte de sua família já estava estabelecida em Ibirapitanga, onde seu pai mantinha uma pequena mercearia, enquanto outros familiares residiam em Piabanha, distrito de Maraú. Após o casamento, Aurino e Maria de Lourdes decidiram iniciar uma nova etapa em Piabanha. Ali, ele abriu uma pequena venda e conciliava o comércio com pequenos reparos em alfaiataria, mantendo vivo o ofício aprendido em Jequié. A vida seguia entre muito trabalho e sonhos cada vez maiores, até que, em uma de suas frequentes idas a Ubatã, Aurino conheceu o comerciante José Nascimento, homem experiente e visionário que logo reconheceu seu talento. José o incentivou a abrir uma alfaiataria na cidade, oferecendo apoio na compra de tecidos e mercadorias. O conselho foi ouvido.

Em 1966, Aurino desembarcou em Ubatã ao lado de Maria de Lourdes e de seus dois primeiros filhos, e Mauro Dias, que tinha 12 anos,  trazendo na bagagem experiência, coragem e uma disposição inabalável para trabalhar. Os primeiros passos foram dados em pontos comerciais alugados, espaços simples, mas carregados de esperança e determinação. Aos poucos, seu trabalho começou a chamar atenção. A qualidade dos acabamentos, o capricho em cada peça produzida, o compromisso com os prazos e, principalmente, a honestidade no trato com os clientes fizeram com que Aurino rapidamente conquistasse respeito, credibilidade e admiração no comércio local.

Com o passar dos anos, deixou de ser apenas mais um alfaiate para se tornar referência. Mais do que costurar roupas, Aurino passou a formar profissionais e criar oportunidades. Compartilhou conhecimentos, ensinou o ofício e montou sua própria equipe de colaboradores. Trabalharam ao seu lado nomes como Mauro Dias, que acabou se tornando praticamente parte da família, além de Edilson, conhecido como Diu, Marçal, vindo de Gongogi, José Careca e Valcir, entre outros que aprenderam com ele não apenas a profissão, mas valores como disciplina, respeito e responsabilidade.

Sempre atento à qualidade de seu trabalho, Aurino buscava os melhores fornecedores. Comprava tecidos e aviamentos com o amigo José Nascimento e também em tradicionais estabelecimentos de Jequié, como as lojas A Predileta e Jequitaia, além de fornecedores conhecidos como Zélio e Dona Dalva. Esse cuidado com a matéria-prima refletia diretamente na excelência de cada peça entregue e consolidava ainda mais seu nome no mercado ubatense.

Foi em Ubatã que sua família cresceu com a chegada de mais dois filhos, completando o quarteto que seria seu maior orgulho, além do adotivo, Mauro Dias. Com muito esforço, economia e dedicação, Aurino construiu sua residência e também seu próprio ponto comercial, transformando o sonho em patrimônio. Com o tempo, aquele espaço passou a ser conhecido como Confecções Santana, estabelecimento que marcou época na história comercial de Ubatã, unindo os tradicionais serviços de alfaiataria à venda de roupas e confecções, tornando-se referência para gerações de clientes.

Mesmo tendo estudado pouco, Aurino sempre compreendeu o valor transformador da educação. Ao lado de Maria de Lourdes, fez dos estudos dos filhos uma prioridade absoluta. Incentivou a formação acadêmica, apoiou faculdades, concursos públicos e mostrou, pelo exemplo, que o trabalho digno pode abrir qualquer porta. Homem de fé e de princípios sólidos, participava ativamente da Paróquia de Todos os Santos, exercendo seu catolicismo com devoção. Também integrou a Loja Maçônica Acácia Ubatense, onde cultivou amizades e fortaleceu valores de fraternidade e compromisso com a comunidade. Fora do trabalho, tinha paixões bem definidas. Era torcedor fanático do Club de Regatas Vasco da Gama e também do Sport Club Corinthians Paulista, acompanhando cada partida com o entusiasmo de quem jamais perdeu a essência do menino simples do interior.

E talvez essa tenha sido sua maior virtude: crescer sem perder as raízes. Aquele menino nascido em Itaquara, criado em meio às dificuldades e limitações de seu tempo, cresceu, venceu e transformou a própria história. Com coragem, diálogo, perseverança e fé, Aurino Alexandrino de Santana construiu muito mais que um comércio ou um patrimônio. Construiu um nome. Formou uma família. Educou filhos. Criou oportunidades para outras pessoas. Deixou em Ubatã um legado de trabalho, caráter, dignidade e inspiração. Aurino Alfaiate não vestiu apenas gerações. Com suas próprias mãos, ajudou a costurar uma parte importante da história de Ubatã. 

Fonte: Dona Maria de Lourdes e filhos Rose, Elcio, Beto, Paulo Katura, e o ex-alfaiate Mauro Dias.

Por Wesley Faustino; pesquisador, historiador, escritor,  especialista em Gestão Pública e Gestão Ambiental e ex-vice-prefeito de Ubatã.
 

FONTE: interiorano.com.br